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O que prever após alta do PIB 2021?

O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrou um crescimento em relação ao trimestre anterior – dessazonalizado, de 1,2%. O resultado veio acima da previsão da média do mercado (0,8%) e continua surpreendendo pela magnitude. Pelo lado da oferta, o setor agropecuário puxou o crescimento, com alta de 5,7%, seguido por indústria, com 0,7%, e serviços, com 0,4%.

 

Pelo lado da demanda, a formação bruta de capital fixo (os investimentos das empresas mais os estoques) subiram incríveis 4,6%, enquanto o consumo das famílias e do governo sofreram quedas de 0,1% e 0,8%, respectivamente. Em valores nominais, o PIB trimestral somou R$ 2,048 trilhões.

 

Crescimento do PIB

 

Este resultado traz uma informação importante. O efeito carry over do PIB é de 4,8%. Esse efeito sinaliza que, se não tivermos mais nenhum crescimento adicional na margem nos próximos três trimestres, já garantimos esse crescimento para o ano. Para termos um crescimento menor do que esse, temos que ter crescimento negativo em pelo menos algum dos trimestres seguintes – e este deve superar, em magnitude, os aumentos de outros.

 

O primeiro efeito prático deste número deve ser uma onda de revisões das projeções de PIB para 2021. Alguns bancos, corretoras e consultorias já estão elevando esse número acima de 4%, ao passo que outros já batem, inclusive, nos 5%. Parece pouco provável que o número fique abaixo de 4%, e, dada esta divulgação, a maior probabilidade nos leva a crer que possa ultrapassar 4,5% sem sustos.

 

Este resultado também nos revela que devemos ter uma mudança do padrão de expansão, principalmente em relação à composição setorial nos próximos períodos. O crescimento da agropecuária se deu muito pela influência externa. Aumentos simultâneos de preços e quantidade de commodities no mercado mundial, impulsionado pelas economias chinesa e americana, somados ao câmbio desvalorizado, garantiram ao setor um crescimento extraordinário. Este setor não deve ter grandes rupturas até o fim do ano, dado o crescimento garantido das grandes economias e uma safra generosa no País. Também não devemos esperar desenvolvimento no mesmo nível que no primeiro trimestre. Devemos ter crescimentos mais moderados, mas que garantam contribuição positiva ou neutra do setor.

 

Já os serviços ainda têm muito potencial para crescer, principalmente a partir do terceiro trimestre. A vacinação no Brasil deve atingir a maioria da população adulta no terceiro trimestre, o que vai liberar muita demanda para o setor. Apesar de um segundo trimestre que deve ser insuficiente ainda, o terceiro dever recuperar com mais força, assim como o quarto trimestre. Se considerarmos que o setor de serviços (que inclui comércio) compõe 60% do PIB, podemos ser otimistas para o número final deste ano. Também se imaginarmos que não há nenhum motivo para que a indústria puxe forte para baixo, a perspectiva não parece ser ruim. Depende muito de como a economia vai se segurar no segundo trimestre.

 

Previsões economia

 

Para se ter uma ideia da dinâmica, podemos ver o que aconteceu nos Estados Unidos, onde a vacinação já está mais avançada: o novo impulso do consumo – que, pelo lado na demanda no Brasil, teve contribuição negativa no trimestre (-0,1%) – veio das classes médias e altas (renda maior que US$ 150 mil/ano), que conseguiram manter o emprego e acumularam poupança na pandemia. Isso deve acontecer aqui também no último semestre. A dinâmica do fim de 2020 mostrava que a queda não foi maior por gastos das classes mais pobres, em decorrência do auxílio emergencial; já neste ano, com o fim do benefício e a vacinação, o impulso deve vir das classes mais altas, em serviços e bens de maior valor adicionado.

 

Consequentemente, apesar de este número não disfarçar alguns problemas estruturais (com faltas de reformas e planejamento), o resultado aponta para um ano bem melhor que o esperado. De qualquer forma, é sempre bom ter cautela – e analisar os riscos podem fazer ameaçar esta boa perspectiva. E são dois: um possível racionamento de energia por causa da seca em algumas regiões do Brasil; e uma terceira onda da pandemia agora, no meio do ano. Estes dois fenômenos, em magnitude, podem interferir no crescimento potencial. Contudo, ainda são apenas riscos, e não certezas.

 

Em suma, a perspectiva, em geral, para este ano é boa. Para o longo prazo, ainda precisamos de mais reformas, no tempo certo, mas é assunto para outras conversas…

 

Autor: ANDRÉ SACCONATO

Economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) e membro do Conselho de Economia Empresarial e Política da mesma instituição. PhD em Economia, Relações Governamentais e Ambiente de negócios, também é professor do MBA da FIA-USP

Fonte: https://www.contabeis.com.br/artigos/6706/o-que-o-pib-do-primeiro-trimestre-pode-nos-dizer-sobre-a-economia-em-2021/

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